A «Colecção 14 Versos», outrora «Biblioteca Anfisbena», é uma chancela fundada por Joana Maria Salgado e Bernardo Maria Salgado. Durante mais de cinco anos reivindicou anacrónicos espaços para o Soneto, porquanto o desusado nos parecia não caber em parte alguma, acreditando na publicação e circulação independente de poemas com 14 versos: tinta sobre papel às portas & travessas, escadarias & mansardas e, sobretudo, por via postal ― cartas.

Dentro do sobrescrito, cadernos agrafados, como lhes convinha: cadernos; frágeis. Alguns deixados nas poucas livrarias com quem pudemos e conseguimos travar uma amizade além-livro. Jornais de capa apoucada, leves quanto bastasse para que voassem se, um dia, precisássemos de os deitar às vilas pela ventana de uma avioneta. As nossas lombadas foram sempre coisa em devir: e em porvir. Nada foi para já; e, até agora, sugerimos tão-somente questão de arquivo, se assim se achasse bem, ou de dobra espontânea no embaraço de uma estante ou de um bolso.

Em Março de 2026 entregámos esses sonetos à Assírio & Alvim: foi devir & porvir; não era para já. E na fortuna da raríssima camaradagem entre autor e editor, nada se esvazia de significado: o título «77 Sonetos para um Ensaio-Geral», pela Assírio & Alvim, é a própria «Colecção 14 Versos» e o melhor que com ela se pôde fazer ao longo dos séculos. E inversamente ao que a primeira vista vos possa oferecer, parece-nos bem que é esta a melhor solução para honrar o ofício da publicação independente: existência tão-crónica que, enfim quieta, encontra a sua estante.

Atrás esses sonetos, crónica continuará a «Colecção 14 Versos», por diante o Soneto e outras-rimas-que-não-a-catorzes, aqui e, pois, até encontrar o seu fim, enfim: enquanto se, sem trégua para connosco mesmos e na maior das austeridades sobre esse mesmo ofício, nos sujeitarmos ao respeito pela letra de uma língua, matéria por demais séria para nela se interferir ao acaso.

& tudo prossegue assim ― tinta sobre papel às portas & travessas, no marco-de-correio, por escadarias & mansardas e, sempre, na Livraria Snob, em Lisboa.

Bernardo Maria Salgado (Lisboa, 4 de Outubro, 1994) é o poeta ao leme da «Colecção 14 Versos», chancela que fundou com a irmã Joana Maria Salgado. Começou por publicar a saga «Anfisbena», em 2021, sucedida dos opúsculos «A máscara que mente», «MMXX-IV» e «Ibero Aedo», entre outros cadernos tombados em Depósito Legal, participando ainda em três edições de revistas literárias; nessas inscreveu versos livres, sonetos e traduções do Espanhol. Escreveu os «Sonetos do Manuscrito Novo» (1. ― 20.) e (21. ― 40.), antes de estrear na Assírio & Alvim os «77 Sonetos para um Ensaio-Geral». É, há oito anos, professor de História no Ensino Básico e Secundário.